Há muito tempo....
Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o trabalho e a faculdade, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do trabalho com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Há muito tempo que não sou eu.
Há muito tempo eu não respiro com paixão nem sinto o fogo da beleza me queimar, sei do perigo que isso vai representar mas minha alma não tem medo da ilusão! Há muito tempo eu não arrisco uma emoção nem sinto o gosto da loucura singular que se apodera de quem ama por amar sem se importar em ficar louco ou sem razão! Há muito tempo eu não respiro fantasia nem me apaixono pra ficar irresponsável; tenho vivido consumindo cada dia Como um ‘senhor’ sempre certinho e responsável! - Há muito tempo eu não transformo em poesia Tudo o que sinto e que me deixa vulnerável
Baseado em Fernando Pessoa!
O valor das coisas
O sentido das coisas. Coisas do nosso cotidiano. Como uma passagem no chão da varanda, como uma planta pendurada no teto, como uma foto lembrando bons momentos, como um canto esquecido da casa. O valor das coisas. Tão subjetivo. Como disse Henriqueta Lisboa: “Também as cousas participam/ de nossa vida. Um livro. Uma rosa./ Um trecho musical(...) O Crepúsculo(...) A graça de um retalho de lua(...) A mesa sobre a qual me debruço(...)” E continua a poeta: “...que tenho a ver contigo/ se não leste o livro que li/ não viste a rosa que plantei/ nem contemplaste o pôr-do-sol/ à hora em que o amor se foi? Que tens a ver comigo/ se dentro em ti não prevalecem/ as cousas – todavia supérfluas -/ do meu intransferível patrimônio?” E eu completo: o olhar que mira aquela foto no porta-retratos não é o mesmo olhar que eu dirijo a ela. Os ramos da jabuticabeira que, distraidamente, eu admiro, nenhum significado possuem para quem os vê. Mas para mim trazem pedaços de história. O chão que eu piso, a janela aberta para o vazio, uma porta que range ao fechar, o que significam para você e para os outros? O mundo das coisas pertence a quem o vivenciou, a quem sofreu ou se alegrou com ele, a pequenos momentos fugidios, mas grudados na alma da sensibilidade. Ah! O valor das coisas! O valor das pequenas coisas, despercebidas aos olhos daqueles que não se interessam por elas, por nada lhes significar. O valor perceptível apenas para a alma de quem vê, em coisas esquecidas, o elo com um passado que fez florescer o amor. Coisas que fazem despertar no coração a presença de palavras moldadas no carinho, de almas que se amarraram no sentimento inextinguível, por isso ainda entrelaçadas, a despeito do tempo e do espaço que não se veem. E, como disse a poeta, que tem você a ver com as coisas que me despertam lembranças e sentimentos capturados do íntimo de meu ser? Elas dizem respeito “ao meu intransferível patrimônio”, àquele legado que, inerente às minhas memórias, faz o meu mundo: não importam apenas o “aqui e agora”, mas também o que se reflete, por meio das coisas que me cercam, em meu universo interior.
Por um momento apenas
Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco ...Quero um pedacinho de tempo para poder descansar esse peso do mundo que estou sentindo em meus ombros ... Um tempo onde não me perguntem nada, nem me peçam nada, apenas me permitam o direito de dar vazão ao pranto que venho engolindo com o café-da-manhã ,enquanto visto a máscara de "olhem como sou valente e forte" .... Quero ser a criança que pode chorar livrementem até que me ponham no colo, restabelecendo assim, o equilíbrio que necessito para dormir em paz. Quero me aventurar na busca dos sonhos, sem ter que vê-los pintados com as cores do desânimo, ou coloridos com as cores do impossível... e quero poder brincar com meus sonhos como se fossem massinha de modelar ilusões .... lambuzar neles meus dedos, até decidir quando precisam se desfazer ... Quero ter companheirismo também nas horas em que tudo parece ter se perdido, e encontrar apenas um ombro onde possa repousar meu cansaço, um ombro que seja silêncio e carinho. Quero deixar que me invada toda a dor do mundo neste instante, porque ela é minha, real e única, e que como tal seja aceita e compreendida ... mesmo que eu ainda não saiba lidar com ela ... E quero poder dizer : - Está doendo sim ! Sem assustar ninguém, causando uma revolução tão grande que meu mundo pareça ainda mais desabitado . Seria possível? Daqui a pouco tudo vai parecer diferente e novo, eu sei. Vou secar os olhos e vou à luta outra vez e da dor hei de ressurgir mais forte ... Porque sou noventa e nove por cento matéria que dificilmente se desintegra . Então, por favor , por um momento apenas, neste meu pequeno momento humano, neste "por cento" de fragilidade, quero ser igual a todo mundo e chorar ...
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